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Mar da Tranquilidade

Mar da Tranquilidade
Título Original : The Sea of Tranquility
Katja Millay
Editora Arqueiro

" Na sua mão e no seu punho existem 27 ossos. Eu quebrei 22 deles. Em termos relativos, minha mão é tipo um milagre. Está cheia de placas e pinos e, mesmo após várias cirurgias, ainda não parece totalmente no lugar. Mas ela está funcionando melhor do que previram. E não é que eu não consiga fazer nada; só não consigo fazer a única coisa que eu queria. Aquilo que me fazia ser quem eu sou."

O que restou de Nastya Kashnikov era sombrio. Tudo o que um dia brilhava como um raio de sol ficou turvo e cinza como uma tempestade. Ela morreu e agora quem vive é uma sombra de quem ela já foi um dia.
E quando Nastya enfim se lembrou do dia fatídico que o mal a encontrou em uma tarde ensolarada, não teve outra alternativa a não ser calar-se. Seria impossível mentir para sua família, então ela escolheu o silêncio.
Sua mãe, seu pai e seu irmão, cada um a seu modo, esperavam que ela voltasse a ser o que era antes. Mas, aquilo não tinha volta. Ela não era a mesma, sua mão agora era um complexo de pinos e ossos quebrados, seu útero não servia mais para nada e seu corpo estava cheio de cicatrizes que a lembravam que não, ela não podia mais ser a mesma.
Sem tocar piano que era a sua paixão, Nastya perdeu o rumo. Ela era a menina prodígio. Suas amigas eram as meninas que também respiravam música. Sua vida social era a música. E quando já não havia mais a música, o seu mundo saiu completamente do eixo.

Morar em outra cidade com a sua tia Margot era uma fuga. Casa diferente, roupas diferentes, nome diferente e escola diferente. Talvez se seus pais vissem como ela havia ficado expert em espantar pessoas, chegassem a conclusão que ao invés de melhorar, ela havia piorado.
Mas, Nastya não esperava conhecer o também especialista em espantar pessoas Josh Bennett. Desde o primeiro olhar, a primeira tentativa falsa de desprezo, aquelas duas almas estranhamente destruídas pelo destino sentem algo em comum. Talvez a dor aproxime as pessoas embora o processo de aceitação seja um pouco inflexível.

Vestida como uma vadia e sem falar uma palavra, Nastya afastava as meninas mas recebia convites indecorosos dos meninos. Através de um convite ela conhece Drew, um galanteador que escondia um amor perdido. Através de Drew Nastya e Josh são obrigados a conviver mais de perto e por trás de toda aquela acidez nascia a cura para os dois.

Ninguém disse que o processo seria fácil, mas Josh e Nastya aprendem a cada dia que apesar das mágoas eles tem direito a felicidade e que ela pode estar mais perto do que se imagina.

A autora nos mostra o ponto de vista dos dois protagonistas. Cada um com suas revelações, seus medos e aquele ódio que habita o coração antes da cura. Dois personagens tão machucados que estranhamente constroem uma relação de amor, cura e segundas chances.

O livro em uma palavra : forte

Como quem lê faz seu filme, eu terminei Mar da Tranquilidade e fiquei bastante tempo pensando sobre o tema. Uma menina que tem o futuro roubado totalmente por acaso. Um menino que tem todos os parentes tirados de sua convivência como se fosses castelos de areia ao vento. Como prever reações ? Como julgar essa ou aquela reação ? 
É difícil demais até para se imaginar e esses dois focaram na fuga por uma questão de sobrevivência, seja pela fala, seja pelo comportamento.
A vida tem esse estranho prazer em juntar pessoas improváveis não é mesmo ? Pois então, foi exatamente assim com Nastya e Josh. Pessoas improváveis que achavam que não tinham mais nada a oferecer para o mundo e de repente, ofereceram a cura um para o outro.

Josh é um personagem encantador. É azedo, ácido e muito engraçado. Uma combinação um tanto estranha para quem é um excelente carpinteiro. Ele usa toda a delicadeza escondida nessas camadas para construir os móveis mais finos e delicados.
Envolver-se com Nastya e ver a transformação que causava nela e nele próprio foi assustador. O amor venceu o medo e esses dois através de caminhos nada convencionais, venceram os medos e se abriram para a vida.

Ao ler os desabafos em primeira pessoa de ambos, somos dilacerados pela dor deles. Ambos perderam muito, mas estavam vivos e o propósito disso, aos poucos foi ficando mais claro.

Um livro profundo sobre perdas e segundas chances.

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