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Um Rosto Bonito

Um Rosto Bonito
Título Original : The Wife´s Tale
Lori Lansens
Editora Bertrand

"Muitas vezes era um fardo insuportável para Mary Gooch carregar se peso significativo e sua responsabilidade para com ele e, naturalmente, ela procurava a quem culpar. A mídia era não só seu alvo como também um de seus vícios. Folheava, entusiasmada as páginas de suas revistas, satisfeita com a celulite das celebridades, horrorizada com as lindas anoréxicas, observando as peças must-have do outono, zombando junto com os críticos dos desastres da moda, e então se dava conta de que comera um litro de sorvete premium, coagida pela propaganda sob a foto da mocinha da televisão com mau gosto para homens."

Mary Gooch um dia foi Mary Brody. Um passado tão distante que mais parecia outra vida. Outra vida onde ela não era tão escrava da fome e ainda tinha esperança.
Mary casara-se com Jimmy Gooch muito nova. Os dois motivados por uma gravidez precoce e embalados por um forte apetite sexual. Os anos e os quilos adquiridos por Mary (151), aliados aos abortos espontâneos, esfriaram o relacionamento.
Mary era cada vez mais escrava de sua fome e se relacionava bem de perto com o sentimento de culpa e fracasso. Quase não tinha vida social e pensar em ir a um evento era sempre seguido por choro decorrente da falta do que vestir, uma vez que nada, absolutamente nada poderia esconder aquele corpo enorme.

Gooch era seu porto seguro. Uma pessoa a quem confiar a leitura diária dos jornais, a senha do banco, o controle do dinheiro e muito mais. Só que ela nunca poderia imaginar que Gooch estava farto de viver aquela vida limitada, de nunca viver a vida em plenitude. Ele havia deixado sonhos demais para trás e o preço a pagar saíra alto demais.
Quando a sorte deu uma piscadinha para Gooch, Mary se vê sozinha em seu cárcere de fome e culpa.
Vinte e Cinco anos negligenciados em nome da fome. Vinte e Cinco anos vivendo em favor da culpa e do fracasso. Mary tinha apenas duas opções : risignar-se ou partir em busca do que é importante. 
Assim, ela escolhe a segunda opção e descobre-se a si mesma. Uma mulher forte, determinada, extremamente caridosa e que luta bravamente para libertar-se de um cárcere que esteve ali quase que a sua vida inteira.

Isabel Allende nos alerta logo na capa : " Você nunca esquecerá esta história extraordinária " E é assim mesmo que acontece. A prosa de Lori Lansens é quase poética. Evoca um tema que afeta a humanidade com muita coragem e sem reservas. Mary é o retrato de muitas mulheres com rostos bonitos aprisionadas pela fome, que perdem filhos, maridos e amigos.

O livro em uma palavra : Inesquecível

Como quem lê faz seu filme, Mary é a minha mais nova heroína. Ela evolui demais no decorrer da trama. Você logo nas primeiras páginas percebe o quanto ela é refém daquilo tudo. Nem ela acredita mais que existe um mundo de oportunidades muito além de chocolates e gorduras. A Mary que vimos nas primeiras páginas é muito diferente da Mary que admira as estrelas nas últimas páginas.
O tema principal não é bonito, mas é real. E é justamente esse enredo e a forma como Lori Lansens envolve o leitor que fazem a gente torcer e vibrar com cada conquista de Mary. Desde a sua ingenuidade e coração do tamanho do mundo, até a sua capacidade de se envolver em encrencas em uma cidade desconhecida e sempre acreditar na bondade alheia, Mary surpreende até a última página.

Mary é inesquecível acima de tudo por sua beleza interior e capacidade de virar o jogo.
Mary vai ao encontro do marido e reencontra a si mesma. Mais forte, mais verdadeira, mais feminina. Palavras que antes, não faziam parte do seu vocabulário.


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